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Um ruído em cada pedra

Ao crepitar de velhas contas

Um eco — seco: são meus ossos

Tiritantes, pontas esculpidas

Em areias inexatas;

Palcos, últimas estadas

De uma ânsia e de uma vida.

(Érico P.)

Memorabilia

“Ser fiel à sua própria alma. Nada mais resta a um homem senão isso” – D. H. Lawrence (1885-1930)

Em foco

‘‘Secret Beyond the Door…’’ (1948), de Fritz Lang (1890-1976)

A carne morna, um corte

Rosna, um rosto, e cospe o sangue,

O dente nessa carne, crava

E sangra, rubra e violeta

Lâmina, carne lisa, nesse corte

Quente, conduzida, reluzente,

A mão tremente, corta e sente,

É plana, a cicatriz ardente;

Morde a carne, o pão presente

Um sopro, rosna, rasga e ri

De tão ausente; cria o medo,

Sua, rosna, grita e sente

Morde a sombra, em corte

O sangue vai, intermitente

Jorra e pulsa, a natureza

De um riacho, baila e flui

Inconseqüente; a poça, o medo,

Sombra e dor, um luto; a mente

Macia e quente, a gota, o sopro

A vista morta, o pulso, o dente

A vida ausente; e perde, e sangra

O sangue vai, esgoto em frente

Pelo chão, artéria ardente

E essa morte, aqui, ali,

Nunca se esvai, de tão presente.

(Érico P.)


foto: Tim Georgeson

O perfume das ervas

Os olhos nas colinas

As árvores tombadas

O rosto nas neblinas;


As vísceras nas orlas

Um charco enlameado

Os rastilhos de pólvora

Um pulso retalhado;


A pausa nos relógios

Aldeias, um balido

Os gritos, o silêncio

Um choro, um alarido.


Na marcha dos perdidos

Uma pele que se esgarça

Uma fenda, carne viva,

E a morte a tudo enlaça.


Chega ao fim – os protegidos

Das batalhas se levantam

Não escutam os estampidos

Nem as balas que recantam.


Uma náusea, a mão ferida,

O retorno, a noite amena;


Mas a alma, retorcida,

Ainda sangra

– e não serena.

(Érico P.)




foto: Dmitri Baltermants

Memorabilia

“Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas’’ – Federico García Lorca (1898-1936)

Folhas de luz

Transpassadas

Sol a sol.


Vivas rendas

Urdidas

Em muda lida.


Secas, rangem

Ao solo em bronze

Suas cantigas.


Volteiam, longas

Espirais de vento

Em melodia.


Caídas, anjos

Irmãs de sangue

E de segredos.


Ardem, ao longe,

Suas preces

Revividas.


São memórias mortas

Nesta veia viva.

(Érico P.)

Prosaicos

Akaki Akakievitch nasceu na noite de 23 de Março. A sua defunta mãe, esposa de um funcionário, muito boa mulher, dispôs as coisas para que o menino fosse batizado segundo as praxes. A mãezinha estava ainda de cama em frente da porta; à direita, de pé, o padrinho, Ivan Ivanovitch Erochkine, excelente homem, chefe de uma secretaria do Senado, e a madrinha, Arina Semenovna Bielobriuchkova, esposa de um oficial e mulher de extraordinárias virtudes. Apresentaram à parturiente três nomes para que escolhesse aquele de que mais gostasse: Moquia, Sosia, ou então o nome do mártir Josdasata. “Não!”, pensou a doente. “Que nomes!” Para lhe serem agradáveis, levantaram a folhinha do calendário e leram, noutro lugar, mais três nomes: Trifili, Dula e Varaiasi. “Que castigo este!”, comentou a mulher. ” São tão bonitos como os outros! Nunca ouvi esses nomes! Ainda se fosse Varadat, ou Varui, mas agora Trifili e Varaiasi!” Voltaram mais uma folhinha do calendário e deparou-se-lhes: Pafsicai e Vaitisi. “Já vejo”, disse, “é o destino que o quer! Nesse caso, prefiro que tenha o nome do pai. O pai chamava-se Akaki, e o nome do filho será, portanto, Akaki.” Resultou dessa maneira Akaki Akakievitch. O menino foi batizado, chorou e fez grandes caretas, como se pressentisse que teria de ser conselheiro titular. Foi isso que aconteceu.

Contamos isto com o propósito de levar o leitor a compreender por si próprio como foi fatal a impossibilidade de lhe dar outro nome. Quando teria sido colocado na repartição e quem o teria nomeado são coisas de que ninguém se recorda. Todos os diretores e todos os chefes de repartição que por lá passaram viram-no sempre no mesmo lugar, na mesma posição e com a inalterável dignidade de um burocrata que compulsa requerimentos; ao vê-lo, poderia julgar-se que assim nascera neste mundo, completamente burocratizado, de uniforme e calvo.

O Capote (1842). Nikolai Gógol (1809-1852)

Untitled #17. James Bryans

Bats. Trent Parke

Portrait of sleeping girl. Roger Ballen

Memorabilia

‘‘A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos.’’ - George Bernard Shaw (1856-1950)

Nesta casa – perdida

Alguns sussurros

Largados

Em cada quarto –

Fina crosta de som.


Um toque, um leque

Um passo rente ao chão

Ou sobre o ar.

O largo arco da manhã.


Assim, tão perto

Quase escuto

O soluçar das luzes.


…Insones vultos

Ariscos

A transitar…


Vão-se as vozes

Apagadas.

Lucífuga sombra

Numa trágica morada.


Está liberto o silêncio.


(Érico P.)



foto: Graeme Mitchell

Pictóricas

Man with dog (1953), Francis Bacon (1909-1992)

Em foco

Bibi Andersson e Liv Ullmann em ‘‘Persona’’ (1966), de Ingmar Bergman (1918-2007)

Retrato

Cores mortas

Insepultas

Nas paredes

Que o tempo amarela.


Esse retrato – veja

Ainda persiste.


Até quando

Haverá chama

Reclusa

No corpo

Desses olhares?

(Érico P.)

Prosaicos

Quando as trevas começaram a cair sobre a Terra, José de Arimatéia acendeu uma tocha de pinheiro e desceu da colina para o vale. Tinha o que fazer em casa. E, ajoelhando-se sobre as pedras do Vale da Desolação, viu um jovem que estava nu e chorava. Seus cabelos eram da cor do mel e o corpo tão branco como uma flor; mas ferira o corpo nos espinhos e sobre os cabelos pusera cinza à guisa de coroa. E José, que possuía grandes virtudes, disse ao jovem que se encontrava nu e chorava: – Não me admira que o teu sentimento seja tão grande, porque, realmente, Ele foi um homem justo. E o jovem respondeu: – Não é por Ele que choro, mas por mim mesmo. Eu também mudei a água em vinho, curei o leproso e restituí a vista do cego. Andei sobre as águas e das profundezas dos sepulcros expulsei os demônios. Alimentei os famintos no deserto onde não havia comida; ergui os mortos dos leitos exíguos e à minha ordem, diante de imensa multidão, uma figueira seca novamente frutificou. Tudo que esse homem realizou eu também realizei e, todavia, não me crucificaram.

O Mestre. Oscar Wilde (1854-1900)

Memorabilia

‘‘Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só.’’ - Graciliano Ramos (1892-1953)

E enfim chegamos à centésima publicação. Quando fundei este espaço, em meados de 2004 (ainda hospedado pelo serviço de blogs do UOL), não esperei seguir com afinco a atividade a que ora me dedico. De início, não fiz outra coisa além de coletar e expor informações relativas à vida e à obra de escritores, músicos e artistas plásticos pelos quais nutro admiração profunda. Tal abordagem meramente explicativa, sem maiores elaborações textuais, mostrou-se, todavia, enfadonha, superficial e repetitiva. Algo como um ‘‘conteúdo de caráter pseudo-enciclopédico rasteiro’’, desprovido de elucubrações, sem refletir meu entendimento e visão sobre as obras e biografias então expostas. Apenas uma descrição no estrito sentido da palavra, sem traços vivenciais, sem tintas pessoais. Essas análises, se é que assim podem ser enquadradas, embora coerentes com meu gosto e com os fatos relatados, mostraram-se vazias e sem propósito. Um resultado direto, creio eu, de minha fiel companheira: a preguiça. Após a constatação do quão pobre era este lugar, busquei conduzi-lo com maiores cuidados, expondo impressões minhas que julgava (e julgo) dotadas de alguma relevância, por menor que seja; algo, pois, a denotar certa novidade, um conteúdo extra, um acréscimo ao leitor. Com o tempo, criações pessoais foram surgindo; agora, inseridas em definitivo neste meio, fazem parte de minha rotina como escritor de horas vagas e de insones madrugadas. Com as pedras deste ofício diletante, cujo único e valoroso pagamento é a palavra de estímulo daqueles que porventura repousem suas atenções sobre meus textos (confesso: uns cinco ou seis valiosos companheiros, a quem sou grato pelo tempo perdido/dedicado), fiz minha gruta de confissões e desabafos, seja em voz própria ou através daqueles que falaram, e falam, mil vezes melhor que eu. Espero, contudo, que o pouco que aqui exponho, em minhas letras aguadas, ainda possa trazer, pelos anos vindouros, uma luz acolhedora e reconfortante, acompanhada daquela brisa fresca que ajude a dissipar uma pequena camada das densas brumas do vazio literário. Ainda assim, se não for em razão de meus escritos, que seja pelos nomes aqui homenageados, em suas obras de imenso  e indubitável valor. Já são parte de meu sangue e, como fiz com meus leitores, a eles também dedico o que aqui importa: o prazer eterno da leitura e meu desejo de gastar dedos e teclados. Se tudo terminar em risível desastre ou simples esquecimento, ao menos terei conteúdo para minha lápide; e poderei pensar que me foram apresentados ótimos escritos, de grandes autores, servindo-me de companhia pelos rumos da vida – nada em vão.

Obrigado a vocês, poucos e bons, por ainda não terem cansado disto.

A ‘‘cidade luz’’ pelas lentes de Eugène Atget (1856-1927)

O Último

Afastou-se de súbito. Ninguém o percebeu. O calor da noite o sufocava, assim como o tormento do zumbido intenso, a invadir os ouvidos, sibilante e incômodo, resultante do serpentino entrelaçar de vozes vindas da turba. Como o incomodavam aquelas vozes… A respiração, curtíssima, fôlego escasso e irregular, a criar uma insuportável sensação de morte próxima. Uma náusea entranhada subiu pela garganta, rascante, até o odor de vômito invadir as úmidas e agitadas narinas e, como em um soluço, quase deixando escapar o que pesava o estômago. Ânsias negras e escusas. Os segundos pareciam correr fora de ritmo, pueris, num tiquetaquear sem métrica, ora vagarosos, ora frenéticos, conseqüência do alterado estado que seguia o curso dos acontecimentos. A visão, turva e apinhada de chuviscos e distorções de cor, esmaecia um pouco mais a cada instante, como o esvair de gotas da clepsidra ou a fosforescência antiga, formando um mosaico de figuras irreconhecíveis, abstratas como as tintas de Pollock, por vezes tenebrosas, mas em contínuo movimento, metamorfoseando-se em novas formas, cores outras, como o bailar de amebas faiscantes, de forma tal que jamais poderiam resultar em conclusões compreensíveis a uma mente verdadeiramente sã. Não soube como prosseguir; o rumo era então desconhecido. As pernas, trêmulas, não se moviam. Os pés fixados ao solo, como se estivessem chumbados, pesando toneladas. O medo tornou-se pedra, o dominou de tal forma que seus dedos não sentiam o toque do ar que, dançarino, os contornava. Sequer percebia a dor nas têmporas que horas antes o torturava, dor esta que seu cérebro, por forças de outra instância, reconhecia através dos latejos em suas orgânicas profundezas. Os ouvidos, imprecisos, pareciam captar apenas ecos e reverberações de uma orquestra polifônica vulgar. Vapores de pensamento subiam à atmosfera. Um bruto, cru e estranho desespero. Surgiam deuses fugidios. Pesadelos de Fuseli. Minutos, talvez horas, não se sabe. Dias? Não, não é possível. Uma idéia, filha única, de que o mundo resume-se a sensações vagas e torturantes, indefinidas para quem sente e confusas para quem vê. E ninguém o via. Ali, sozinho, em meio às vozes que badalam os tímpanos como sinos de mil catedrais, estava o Homem. Aquele Homem. Em atroz conflito com os destroços de suas percepções, debatia-se mudo, acuado, uma gota de óleo, coração percutindo de forma dolorosa; um motor a bombear sua náusea boca afora. E ela veio. Antes dela o suor, todos os poros, e a saliva. Não sabia onde estava. Sua memória dissolveu-se como a espuma das ondas. Não mais identificava o ambiente que o cercava – tempos antes, verdade, era límpido como um céu tropical. Quem seriam as pessoas que o bulício, cada vez mais distante, indicava a presença? A resposta, se existiu, perdeu-se em meio aos delírios. Foi-se a razão e o controle de si. A náusea, maior que o próprio ser, não mais se fez contida. Em jatos, abundante, o vômito desprendeu-se de seu conceptáculo. Ganhou os ares, cor e consistência, rumo a um solo presumido, porque não visto. O Homem, débil e solitário, desbotou sob um céu escuro e sem estrelas. Uma consciência sublimada como o filamento da lâmpada bem próxima, mas não notada. Um animal, apenas um animal. Um féretro aberto, sem exéquias. O corpo, já combalido, fenecera pelos olvidados becos da madrugada, não sem antes deixar que penetrasse nas narinas um último odor desagradável.

(Érico P.)

Prosaicos

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Uma Oração (Elogio da Sombra), Jorge Luis Borges (1899-1986)

Memorabilia

‘‘A vida é o pouco que nos sobra da morte’’ – Walt Whitman (1819-1892)

Prosaicos

Eu sou Darrell Standing. Fui apanhado em flagrante. Não vou discutir aqui os detalhes desse caso com o Professor Haskell. Não passou, em absoluto, de um assunto particular. O fato é que, numa onda de raiva, obcecado pela fatídica fúria sangüinária que me amaldiçoa ao longo dos tempos, matei meu colega. Os registros do tribunal mostram que eu o matei; e eu concordo com os registros do tribunal.

Não, não serei enforcado por este assassinato; recebi como punição a sentença de prisão perpétua. Eu tinha trinta e seis anos na época, tenho, agora, quarenta e quatro. Passei esses oito anos na Prisão Estadual da Califórnia, San Quentin. Cinco desses anos, eu os passei na escuridão, confinamento solitário, é como eles chamam. Os homens que o sofreram chamam-no de morte em vida. Mas, nesses cinco anos de morte em vida, eu consegui alcançar uma liberdade que poucos homens já conheceram. Mesmo sendo o mais confinado dos prisioneiros, eu não apenas percorri o mundo, eu também percorri o tempo. Os homens que me emparedaram por tantos anos me deram, contra sua vontade, a largueza dos séculos.

O Andarilho das Estrelas (1915), Jack London (1876-1916)

Tennessee Williams (1911-1983) em Paris, por Karl Bissinger (1914-2008)

Vitrola

Em conseqüência da imensa preguiça que ora me consome, limitar-me-ei a colocar os long plays sob a agulha. A sessão mudou de nome (fast jukebox, convenhamos, era de uma falta de criatividade vergonhosa e, olhando agora, parece-me uma expressão sem muito sentido…); o conteúdo sonoro, no entanto, permanece inalterado. Jazz e música erudita como estilos dominantes; choro (uma grande paixão que nunca deu as caras por aqui) e coisas outras a depender do humor do dia. Para maiores e melhores análises sobre obras primorosas, dentre outros assuntos de indiscutível relevância, indico alguns blogs cujos autores são verdadeiros catedráticos nos temas trabalhados, com linhas e mais linhas feitas com esmero para o mais puro deleite de quem (como eu) adora pesquisar detalhes sobre a vida e a obra dos mais variados nomes. Confiram os mais que excelentes blogs  jazz + bossa + baratos outros (do meu xará Érico Cordeiro), Jazzseen (de John Lester e companhia), MELObateroMANIA (do mestre Olney) e P.Q.P. Bach (para os amantes da música erudita).

P.S.: Sim, sei que ‘‘Vitrola’’ também não denota criatividade alguma – muito pelo contrário. Para não piorar as coisas, todavia, a prudência manda-me, ao menos por hora, deixar como está.

Inicio com o guitarrista Ed Bickert e o contrabaixista (e também pianista, vibrafonista e baterista) Don Thompson, ambos canadenses, executando ‘‘I’ll Wait and Pray’’ e ‘‘Come rain or come shine’’ na companhia do baterista Terry Clarke, no álbum  At The Garden Party, de 1978:

Seguindo com ‘‘Why Shouldn’t I?’’ na voz da adorável Ella Mae Morse. O álbum? ‘‘Barrelhouse, boogie and the blues’’, na verdade uma senhora caixinha com cinco discos deliciosos.

Dando continuidade à sessão com a Filarmônica de Viena, sob a regência do maestro japonês Seiji Ozawa, executando ‘‘The Story of the Calender Prince’’, segunda parte de Scheherazade, op. 35, do compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908):

O compositor Nikolai Rimsky-Korsakov

Por fim, para lembrar os cinqüenta anos de morte de nosso querido Heitor Villa-Lobos (1887-1959), o prelúdio das Bachianas Brasileiras nº 4 (nosso maestro será lembrado e melhor homenageado em sessões futuras, até o fim do ano):

Boa audição!

Pictóricas

Birthday (1915), Marc Chagall (1887-1985)

O olho, ao captar presenças multicores,

Lampejos deste mundo vivaz e erradio,

Aprisiona a alma e o fogo dos amores

Dos amantes de sombra e júbilo bravio.


Percorre vastos campos, lúcido e atento

A toda forma e cor – refúgios da História

Move-se veloz, largas pupilas ao relento

Como quem procura adornos da memória.


Vaga pelos tempos, mirando raridades

Voltando-se aos confins da noite desabrida

E pelas penumbras, buscando vãs verdades

Revela o claro orbe ante a treva adormecida.


E assim se faz o guardião dos percebidos

A persona d’alma – o arcano dos sentidos.


(Érico P. – 10 de dezembro, 2009)

Memorabilia

‘‘O poema é solitário. É solitário e andante. Quem o escreve, a ele fica entregue.” – Paul Celan (1920-1970)

La Musique des Puces (1944), Robert Doisneau (1912-1994)

Penso que cultivo tensões

como flores

num bosque onde

ninguém vai.


Cada ferida — perfeita —,

fecha-se numa minúscula imperceptível pétala,

causando dor.

Dor é uma flor como aquela,

como esta,

como aquela,

como esta.


‘‘A Flor’’, Robert Creeley (1926 – 2005), tradução de Régis Bonvicino.



De teus lábios, cuja carne encela

Resquícios da noite que perdura,

Brotam relíquias, qual numa capela,

Em fina flor e néctar de amargura.


Sim – é fel em abundância e dissabor

Ou fruto de semente acre acetinada

Mas também da natureza o amargor

Renasce em pura essência adocicada.


E em tão raro e tão latente mel

A mais perfeita flor se faz presente

Pois da boca que sustenta um céu

Há de nascer desejo mais ardente.


(Érico P. – noite de 8 de dezembro, 2009)

Prosaicos

O salão do Conselheiro de Estado Charamikin está mergulhado em agradável penumbra. A grande lâmpada de bronze, com seu quebra-luz verde, tinge, à maneira de uma “noite da Ucrânia”, as paredes, os móveis, as fisionomias… De quando em quando, na lareira expirante, abrasa-se uma acha que se consome, e por um instante projeta nos rostos um clarão de incêndio. Isto, porém, não perturba a harmonia geral das luzes. O tom de conjunto, como diriam os pintores, mantém-se.

Ao pé da lareira, acha-se afundado em uma poltrona, na postura dum homem que acaba de jantar, Charamikin em pessoa, senhor idoso, de suíças cinzentas de funcionário, olhos de um azul doce. Transparece-lhe no rosto a benignidade. Um sorriso melancólico franze-lhe os lábios. A seus pés, sobre um mocho, com as pernas voltadas para a lareira e estirando-se preguiçosamente, está sentado o Vice-Governador Lopnef, galharda figura de cerca de quarenta anos.

Junto ao piano brincam os filhos de Charamikin – Nina, Kólia, Nádia e Vânia.

Do salão da Sra. Charamikin chega, pela porta entreaberta, uma luz tímida. Ali, sentada à secretária, vê-se Ana Pavlovna, presidenta do Comitê das damas da cidade — jovem senhora, viva e picante, dos seus trinta anos e mais alguma coisa. Através do lornhom, os olhos negros e vivos deslizam pelas páginas de um romance francês. Sob o romance encontra-se, dilacerado, um relatório do Comitê, do ano anterior.

— Antigamente, nesse ponto de vista — diz Charamikin, piscando os olhos pacatos à claridade dos tições morrediços —, nossa cidade era mais favorecida. Não se passava um inverno que não aparecesse alguma estrela. Tivemos atores e cantores célebres. E agora?… Sabe o diabo o que é! Afora prestidigitadores e tocadores de realejo, não vem mais ninguém. Nenhum prazer estético… Parece que vivemos no mato… Sim… Lembra-se, Excelência, daquele trágico italiano?… Como se chamava mesmo?… Um moreno, alto… Queira Deus que eu me lembre! Ah! sim! Luigi Ernesto di Ruggiero. Um talento notável… Que força! Era ele abrir a boca, e o teatro em peso estremecia. A minha Anniutotchka se interessava muito pelo talento dele. Conseguiu-lhe o teatro e vendeu bilhetes para dez espetáculos… Ele, em recompensa, lhe deu lições de declamação e de música. Um amor de homem! Ele esteve aqui… não vá eu enganar-me… há doze anos… Não, estou enganado… Menos, apenas dez. Anniutotchka, que idade tem a nossa Nina?

— Vai fazer dez anos — gritou Ana Pavlovna lá do seu escritório. — Por quê?

— Nada, minha filhinha, só para saber… E às vezes também vinham bons cantores… Lembra-se do tenore di grazia Priliptchin? Que amor de homem! Que aparência!… Um louro… semblante expressivo, maneiras parisienses… E que voz, Excelência! Só tinha um defeito: cantava algumas notas com o ventre e emitia o ré em falsete; no mais, tudo era bom. Dizia-se aluno de Tamberlick… Anniutotchka e eu conseguimos para ele o salão do Círculo, e, como prova de gratidão, ele cantava em nossa casa, dias e noites… Ensinava canto a Anniutotchka… Esteve aqui, lembro-me bem, pela Quaresma, isto há… doze anos. Não, mais!… Que memória, santo Deus! Anniutotchka, quantos anos tem a nossa pequena Nádia?

— Doze anos.

— Doze… se acrescentarmos dez meses… Exatamente… treze anos!… Antigamente havia na cidade — como direi? — mais vida… Vejamos, por exemplo, os nossos saraus de beneficência. Que belos saraus que houve… Que encanto! Tocava-se, cantava-se, declamava-se… Depois da guerra, lembro-me bem, houve aqui prisioneiros turcos. Anniutotchka organizou um sarau em benefício dos feridos. Rendeu mil e cem rublos… Os oficiais turcos ficaram doidos com a voz de Anniutotchka, e levavam o tempo a lhe beijar a mão. Eh! eh!… Apesar de asiáticos, são pessoas reconhecidas, os turcos. O sarau alcançou tamanho êxito que — imagine V. Exa. — eu anotei no meu diário. Isto foi, se estou bem lembrado, em 76… Não… Em 77… Não! Um momento! Quando foi mesmo que tivemos os turcos? Anniutotchka, quantos anos tem o nosso Kolitchka?

— Eu tenho sete anos, papai — disse Kólia, garoto trigueiro, de cabelos pretos como carvão.

— Sim, a gente envelhece — assenta Charamikin, sorrindo. — A nossa energia já não é a mesma… Eis aí a razão de tudo… A velhice, meu caro! Faltam precursores novos, e os velhos envelheceram… Já não se tem o mesmo ardor. Quando eu era mais moço, não gostava que as pessoas se aborrecessem… Era o primeiro a ajudar a nossa Ana Pavlovna… Tratava-se de organizar um sarau de beneficência, uma tômbola, de dar apoio a uma celebridade estrangeira? Eu largava tudo e metia mãos à obra… Um inverno, recordo-me bem, corri tanto, trabalhei tanto, que caí doente… Não posso esquecer esse inverno… Lembra-se do espetáculo que organizamos com a nossa Ana Pavlovna em benefício das vítimas do incêndio?

— Em que ano foi isso?

— Não faz muito tempo… Em 79. Não, creio que em 80. Um momento. Que idade tem nosso Vânia?

— Cinco anos — grita Ana Pavlovna lá do seu salão.

— Então foi há seis anos… Sim, meu caro, tantas coisas… Agora já não há nada disso! O ardor já não é o mesmo.

Lopnef e Charamikin meditam. A acha morrediça aviva-se pela última vez e se cobre de cinza.

Cronologia Viva. Anton Tchekhov (1860-1904)

Memorabilia

‘‘a função do amor é fabricar desconhecimento’’ – e. e. cummings (1894-1962)

O canto, todas as noites,

Vem da Casa, náufrago de lágrimas

Rompendo a boca inerte, golpes

No espelho do silêncio.

Mãos, ao sabre cinabrino,

Dançam – rasgando a madrugada.

No hálito das horas, recua a garganta

Entravada; ecos do sofrer, segue

Tempo adentro, fronte ornamentada

Em gélida ruína, tábula em sangue,

Sílfide salina, pela senda, arco rubro

E repousa o canto na cripta selada.


(‘‘À Morte Lenta’’, Érico P.)

Pictóricas

Satan Starting from the Touch of Ithuriel’s Spear (Satan flieht, von Ithuriels Speer beruht), 1779, Henry Fuseli (1741-1825)

Prosaicos

Não estarei só, nos primeiros tempos. Estou bem certo disso. Só. E dito depressa. É preciso dizer depressa. E pode-se jamais saber, numa escuridão dessas? Vou ter companhia. Para começar. Alguns títeres. Eu os eliminarei em seguida. Se puder. E os objetos, qual deve ser a atitude em relação aos objetos? Primeiro de tudo, são necessários? Que pergunta. Mas não escondo de mim que se podem prever. O melhor é não decidir nada a respeito, de antemão. Se um objeto se apresentar, por uma razão ou por outra, levá-lo em conta. Lá onde há pessoas, dizem, há coisas. Quer dizer que ao admitir aquelas é preciso admitir estas? A ver. O que é preciso evitar, não sei por quê, é o espírito de sistema. Pessoas com coisas, pessoas sem coisas, coisas sem pessoas, pouco importa, conto mesmo poder desbaratar tudo isso em muito pouco tempo. Não vejo como. O mais simples seria não começar. Mas sou obrigado a começar. Quer dizer que sou obrigado a continuar. Terminarei talvez por ficar muito apertado, num cafarnaum. Idas e vindas incessantes, atmosfera de bazar. Estou tranquilo, vamos.

O Inominável, 1949, Samuel Beckett (1906-1989)

Fast Jukebox

Esta semana revelou-se cruel e impiedosa. Fato: final de ano é sempre um peso a mais sobre os ombros, um esforço maior a cada passo e um vazio desalentador no bolso. O tempo encurta-se e acumulam-se dívidas sobre a mesa. Destarte, em decorrência do estresse acumulado, sempre a esgotar qualquer fonte de inspiração, trago uma sessão Jukebox mirrada quanto às palavras, porém farta em acordes, escalas, harmonias e o que mais possa fazer parte do obscuro mundo da teoria musical. Sem mais delongas, vamos aos petiscos noturnos de hoje (relevem, só por hoje, a ausência de maiores informações):

Iniciando com o piano de Dave Brubeck, o sax alto de Paul Desmond, o contrabaixo de Eugene Wright e a bateria de Joe Morello,  no quarteto responsável pelo clássico álbum ‘‘Time Out’’, de  1959, de onde retiro a composição ‘‘‘Kathy’s Waltz’’, de autoria do próprio Brubeck.

Prosseguindo com o sax tenor do grande Dexter Gordon, em duas músicas pinçadas da caixa The Complete Blue Note Sixties Sessions. São elas: ‘‘Blue Gardenia’’ e ‘‘I Want More’’. Abaixo, na ordem listada:

Permanecendo no catálogo da Blue Note, deixo-lhes Herbie Hancock que, com seu piano, também teve lançada sua caixinha com as gravações completas da década de sessenta. É dela que retiro ‘‘Dolphin Dance’’ e ‘‘The Prisoner’’:

Finalizando com um encontro de gigantes. John Coltrane e Duke Ellington, do álbum Duke Ellington & John Coltrane, de 1962. Dele, as composições ‘‘In a Sentimental Mood’’, de Ellington, e ‘‘My Little Brown Book’’, de Billy Strayhorn. As mesmas versões podem também ser encontradas no álbum Coltrane For Lovers, compilação póstuma com, como sugere o título, baladas ‘‘catalisadores de relacionamentos afetivos’’ com o maior sax tenor de todos os tempos.

Pergunta: preferem o player na própria página do blog (como agora) ou o link para a página de download do 4shared (como antes)? Lembrando que ainda é possível fazer o download de todas as músicas. Basta dirigirem-se à pasta do 4shared (no menu à direita, ou clique aqui) que lá estarão.

Dando umas voltas pelo site do Projeto Releituras, deparei-me com esta ótima idéia do escritor, lingüista e filósofo italiano Umberto Eco. Vejam:

UMBERTO ECO propõe aqui uma brincadeira: algumas obras, hoje consagradas, são submetidas a um hipotético editor. E, analisadas em “fichas de leitura”, são, finalmente, recusadas. Esta é uma experiência pela qual todo escritor novo, em qualquer parte do mundo, já passou: mandar seus originais para uma grande editora, ficar esperando um contrato ou pelo menos uma proposta e, de repente, receber uma carta muito amável assinada pelo editor. Nessa carta, ele é informado de que certamente seu livro tem qualidades, de que provavelmente seu livro fará sucesso e de que infelizmente seu livro não será publicado.

ANÔNIMO

A BíBLIA

Devo confessar que quando comecei a ler os originais, e durante as primeiras páginas, senti-me entusiasmado. Ali há ação pura e tudo o mais que o leitor de hoje exige de uma obra de evasão: sexo (muitíssimo), com adultério, sodomia, homicídio, incesto, guerras, etc.

O episódio de Sodoma e Gomorra, com os travestis que pretendem violar os anjos, é digno de Rabelais; as histórias de Noé são o mais puro Emilio Salgari; a fuga do Egito é uma história que, mais cedo ou mais tarde, acabará sendo filmada… Em resumo, trata-se do verdadeiro roman-fleuve bem estruturado, que não economiza efeitos, pleno de imaginação com aquela dose de messianismo que agrada, sem chegar ao trágico.

Mais adiante, no entanto, percebi que se trata, na verdade, de uma antologia de vários autores, com muitos, excessivos, trechos do poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, choradeira sem pé nem cabeça.

O resultado é um feto monstruoso que corre o risco de não agradar a ninguém, porque tem de tudo. Além disso, será cansativo estabelecer a questão dos direitos de tão diferentes autores, a menos que o representante de todos eles se encarregue da tarefa. Mas nem no índice encontrei o nome desse representante, como se houvesse da parte dos autores interesse em manter seu nome oculto.

Talvez fosse possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Aí estaríamos pisando em terreno firme. Com o título: Os Desesperados do Mar Vermelho.

HOMERO

A ODISSÉIA

Pessoalmente,  o livro me agrada. A história tem beleza, é apaixonante, cheia de aventuras. Tem a dose exata de amor, fidelidade e de escapadas adulterinas (multo boa a figura de Calipso, uma típica devoradora de homens); tem, inclusive, um momento “lolítico”, na melhor linha nabokoviana, com uma ninfeta chamada Nausicaa: no episódio, o autor se permite algumas ousadias, mas em momento nenhum incorre em excessos. O conjunto é excitante. As cenas merecem figurar ao lado das melhores já produzidas no gênero western: a luta é violenta, a cena do arco explora, até as últimas possibilidades, o potencial literário de suspense.

Que mais poderia dizer? Leio essa de um sopro, melhor que o primeiro livro do autor, excessivamente estático em sua insistência de permanecer no mesmo lugar, cansativo pela exuberância de acontecimentos (na terceira batalha e no décimo duelo, o leitor já entendeu todo o mecanismo). Ademais, a história de Aquiles e Pátroclo, com seu fio latente de homossexualidade, nos transmite um certo desagrado. Ao contrário, neste segundo livro, tudo caminha maravilhosamente; até o tom é mais sereno: pensado mas não reflexivo. Depois, a montagem, o jogo de flash-backs, o encadeamento das histórias! Em suma, muita categoria. De fato, esse Homero tem talento.

Talento demais, seria o caso de dizer… Chego a me perguntar se tudo ali será farinha do mesmo saco. Sabe-se como é: escrevendo, escrevendo, a gente melhora (quem sabe se o terceiro livro será um estouro). Mas o que me faz vacilar (e, afinal, me leva a opinar negativamente) é a confusão que pode resultar da questão de direitos.

Antes de tudo, é impossível localizar o autor. Os que o conhecem dizem que, de toda maneira, seria inútil discutir com ele as pequenas modificações que deviam ser introduzidas no texto, pois é cego como uma toupeira e, em mais de uma ocasião, deu provas de ser incapaz sequer de escrever. Dizem que tinha seus originais na memória, mas que não estava muito seguro do que havia escrito, alegando que o copista havia introduzido interpolações na obra. Terá ele sido o autor ou apenas um testa-de-ferro?

DANTE ALIGHIERI

A DIVINA COMÉDIA

O trabalho de Alighieri, embora de um típico escritor de fim de semana que, na vida sindical, está filiado ao órgão de classe dos farmacêuticos, demonstra indubitavelmente certo talento técnico e notável “alento” narrativo. A obra (em florentino vulgar) compõe-se de quase 100 cantos em tercetos rimados e se constitui em leitura agradável e interessante. Gosto, principalmente, de suas descrições de astronomia e certos juízos concisos e densos, que faz com freqüência, sobre teologia. Mais inteligível e popular é a terceira parte do livro, que diz respeito a assuntos mais do gosto da maioria, e que concernem aos interesses cotidianos do possível leitor (assuntos tais como a salvação, a visão beatífica, a devoção à Virgem Maria). Obscura e caprichosa é a primeira parte, com passagens de baixo erotismo, violência e trechos francamente grosseiros. Esta é uma das poucas contra-indicações para superar esse primeiro “canto”, o qual, quanto à criatividade, não diz mais do que já foi dito por milhares de manuais sobre o outro mundo.

DENIS DIDEROT

A RELIGIOSA

Confesso que não cheguei a folhear os manuscritos, mas acredito que um crítico deve saber, até de olhos fechados, o que deve e o que não deve ler. Conheço esse Diderot: redige enciclopédias e agora tem em mãos um projeto de obra em não sei quantos volumes, que provavelmente jamais será editada. Anda por toda parte procurando desenhistas capazes de copiar o mecanismo de um relógio, ou as minúcias de uma tapeçaria de Gobelin, e levará à falência seu editor. Não creio que se trate do homem indicado para escrever algo divertido numa narrativa, especialmente para uma coleção como a nossa, na qual sempre incluímos coisas delicadas, um pouquinho picantes, como Restif de la Bretonne.

MARQUÊS DE SADE

JUSTINE

O manuscrito estava em meio a um monte de coisas que eu devia ver esta semana, e, para ser sincero, não o li todo. Limitei-me a abri-lo três vezes, ao acaso, em três  lugares diferentes, e vocês sabem que para um olho experimentado isso é mais que o bastante.

Bem, da primeira vez encontrei uma avalanche de páginas de filosofia da natureza com divagações sobre a crueldade e a luta pela sobrevivência, sobre a reprodução dos vegetais e a evolução das espécies animais. Da segunda vez, deparei com pelo menos 15 páginas sobre o conceito de prazer, sobre os sentidos e a imaginação, e mais coisas desse gênero. Da terceira vez, outras 20 páginas sobre as relações de submissão entre o homem e a mulher, nos diferentes países do mundo… Acho que isso basta. Não estamos procurando uma obra de filosofia; o público, hoje, quer sexo e mais sexo. Não importa a maneira como ele venha temperado.

MIGUEL DE CERVANTES

DOM QUIXOTE

O livro, nem sempre inteligível, é a história de um gentil homem espanhol e de seu criado, os quais vão pelo mundo perseguindo sonhos de cavalaria. Esse Dom Quixote é um tanto louco (sua figura é magnificamente concebida: de fato, Cervantes sabe narrar), enquanto seu criado é um simplório (dotado de certo e rude bom senso), com o qual o leitor logo se identifica, quando ele procura desmistificar as fantasias de seu amo. Até aqui o argumento, que se desdobra com alguns bons efeitos e com freqüentes episódios divertidos, parece bem. Mas a observação que quero fazer vai além de um juízo pessoal sobre a obra.

Em nossa bem sucedida coleção econômica Os Fatos da Vida, publicamos, com êxito notável, obras como Amadis de Gaula, A Lenda do Graal, O Romance de Tristão, etc. Agora temos opção de editar Reis da França, do mocinho de Barberino, livro que para mim será o grande êxito do ano. Pois bem, se nos decidirmos por Cervantes, poremos em circulação um livro que, não obstante ser muito bem feito, atirará no lixo o publicado até agora, fazendo esses outros romances parecerem coisa de idiota. Compreendo a liberdade de expressão, o clima de rebeldia e tudo o mais, mas não podemos prejudicar a nós mesmos. A última coisa que desejo é que, buscando novidades a qualquer preço, acabemos por comprometer uma linha editorial que até agora foi popular, moral e também rendosa. Recusar.

MARCEL PROUST

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Trata-se, sem mais nem menos, de uma obra comprometida, talvez muito grande; mas é possível vendê-la através de uma série de livros de bolso.

Tal como está é impraticável. Falta nela um trabalho vigoroso de depuração. Toda pontuação, por exemplo, terá de sofrer uma completa revisão. Os períodos são muito cansativos e há alguns que chegam a ocupar uma página. Com um bom trabalho de revisão que os reduza a dois ou três linhas cada, com uma melhor utilização do ponto e do parágrafo, a obra teria muito a ganhar. Se o autor não concordar, o melhor será não editá-lo.

FRANZ KAFKA

O PROCESSO

Não é mau essa livrinho; é policial, com momentos a Hitchcock: por exemplo, o homicídio final, passagem de público certo.

Parece, no entanto, que o autor o escreveu sob censura. Que significam essas alusões obscuras, essa falta de nomes, de pessoas, de lugares? De que crime acusam o personagem, afinal? Se esses pontos puderem ser esclarecidos, tornando a história mais concreta, a ação se tornaria mais límpida e mais certo o suspense.

Esses escritores jovens acreditam fazer “poesia”,  pois dizem “um homem”, em vez de dizer ”o senhor tal, a tal hora, em tal lugar”.

Em síntese: se é possível fazer essas modificações, bem; caso contrário, devolver os originais.

JAMES JOYCE

FINNEGANS WAKE

Por favor, recomende à redação que tenha mais cuidado quando me envia os livros. Leio inglês e me mandam um livro escrito em sei lá que diabo da idioma. Em separado, estou devolvendo o volume.

Memorabilia

‘‘É a mim que corrijo ao retocar minhas obras’’ – William Butler Yeats (1865-1939)

O que vês

É desejo relativo.

Para mim, uma imagem

Para ti, um desatino.

De tais sonhos, um prelúdio

Em notas; florescer caminhos

Por onde passas; alaúdes

Flor de cor, aroma, espinho

Rosa-cravo-vetiver

Em teu rosto, algo perdido

Gotas, sal, um brilho anil

Mil versos encarnados

E uma pétala senil.


(Érico P.)


John Dowland (1562-1626) – ‘‘Weep you no more sad fountains’’, por Jon Sayles:

Pelos ares

Blue skies

Smiling at me

Nothing but blue skies

Do I see


(Blue Skies, 1926, Irving Berlin)

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